Início » Amor Próprio » Baixa Autoestima: como anda a nossa capacidade de valorizar quem somos?
baixa autoestima padrão imposto

“Mode on high tech. Modelo ocidental. Magra, clara e alta, miss beleza universal. É ditadura! Quanta opressão! Não basta ser mulher… tem que tá dentro do padrão!”.

O trecho da música Miss Beleza Universal da artista Doralyce traz os vestígios de um desafio que é muito presente e pulsante na vida da maior parte das mulheres brasileiras: a luta contra a baixa autoestima.

Ela influencia a visão que fazemos de nós mesmas, a forma como nos expressamos no mundo e nossa capacidade de termos gentileza e admiração pelos nossos processos e nossas singularidades.

Neste artigo, vamos compreender de onde parte a construção de uma baixa autoestima e como podemos vislumbrar caminhos diferentes para que ela seja transformada em algo positivo e potente.

Como se constrói a autoestima?

como construir a autoestima

A construção da autoestima, seja ela positiva ou negativa, é um processo que começa de fora para dentro.

Enquanto ainda somos crianças e não usufruímos da capacidade de definir nossa identidade por nós mesmas, são os nossos familiares e as pessoas envolvidas no nosso processo de criação as principais responsáveis pela nossa vida, e que nos dão esse primeiro referencial de quem somos neste mundo.

Referência familiar e contexto social

Embora o contexto familiar seja nossa primeira referência, naturalmente o contexto social mais amplo de onde nascemos e crescemos também passará a ter a sua parcela de influência conforme vamos entrando em maior contato com ele na escola, nos espaços públicos, na casa de conhecidos, etc.

empoderar a criança na infância

Nesse momento da nossa infância não temos o discernimento para saber se o que dizem ao nosso respeito faz ou não sentido para nós, se é algo positivo que nos cabe, ou apenas um juízo de valor negativo que podemos desconsiderar. Consequentemente acreditamos que somos exatamente aquilo que estão nos dizendo.

Construção desde a infância

Mesmo que ao longo da vida essa nossa capacidade vá sendo melhor desenvolvida, mesmo que o nosso amadurecimento fortaleça a nossa própria autopercepção de virtudes, falhas e vulnerabilidades… ainda assim a criação dessa autopercepção se desenvolve a partir das nossas bases primárias. Ou seja, daquilo que um dia acreditamos ser a partir do que nos foi dito pelas pessoas envolvidas na nossa criação.

É por essa razão que tantas mulheres, nascidas em um contexto de sociedade que é machista e opressor, tem a baixa autoestima como uma constante nas suas vidas. Para muitas de nós faltaram referências suficientes para o desenvolvimento espontâneo de uma autoestima positiva.

Leia também: O que é empoderamento feminino? Importância e 7 princípios

A baixa autoestima das mulheres é lucrativa

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No contexto de sociedade em que vivemos, ocidental e capitalista, não existe nenhum interesse em que você se torne uma mulher autônoma, livre e cheia de autoestima.

É muito mais interessante que a construção dessa autoestima continue sendo definida pelo olhar externo, porque assim continuamos reféns e dependentes dessas definições para nos sentirmos aceitas. E nesse processo, muita coisa acontece:

A busca pelo padrão imposto

Alimentamos esse sistema com o nosso investimento em coisas supérfluas que se proponham a “melhorar” a nossa versão atual. De modo que ela se aproxime cada vez mais de uma versão que se assemelha ao padrão imposto. Seja esse padrão um padrão de beleza, de comportamento, de consumo, de desejos, etc.

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Necessidade humana

Ignoramos a nossa necessidade humana de pausa, repouso, introspecção e ócio criativo porque nos sentimos convocadas a produzir e desempenhar o papel que é esperado de nós. E o papel esperado das mulheres, ah… é bem puxado!

Nos privamos da possibilidade de reivindicar os espaços que são nossos por direito, como as posições de poder na política, nas empresas, nas instituições de ensino, nas ruas, ou até mesmo dentro do nosso próprio lar. Sequer nos sentimos capazes de ocupar essas posições.

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Nos embotamos até mesmo da possibilidade de transar livremente. Com todas as caras e bocas e expressões corporais esquisitas que um sexo sem compromisso com a aparência e a performance pode ter.

O custo do vazio existencial gerado

Todas essas consequências da baixa autoestima são muito interessante do ponto de vista dessa sociedade de consumo ocidental, capitalista e machista. Pois a baixa autoestima das mulheres é lucrativa.

Ao final de cada descontentamento com você mesma existe um produto ou serviço prontinho para tampar o seu vazio existencial. Só o que você precisa dar em troca é o seu dinheiro, sua saúde mental e o seu tempo de vida.

Mas o quanto tudo isso te custa?

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Autoestima positiva tem a ver com transgressão

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Tornar-se uma mulher autônoma, livre e cheia de autoestima dentro de uma sociedade opressora significa, necessariamente, tornar-se transgressora dessa sociedade.

Transgressora das regras impostas a respeito do que significa ser mulher, transgressora dos padrões de beleza, dos espaços hegemônicos, da cisheteronormatividade, das crenças opressoras… de tudo aquilo que limita uma expressão genuína da sua identidade, a despeito de tudo aquilo que disseram que você deveria ser.

Mas ocupar essa posição de agente da transgressão não é uma tarefa fácil, tampouco passiva. Não existe conforto ou sensação de que tudo está em conformidade quando para exercer a nossa existência de maneira genuína precisamos nadar contra a maré, não é verdade?

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Como lidar com a baixa autoestima?

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Compreendemos até aqui que o nosso contexto de sociedade atua contra a construção do autoamor das mulheres. Mas precisamos compreender ainda que as camadas de interseccionalidade vão favorecer que esse processo se torne ainda mais difícil para as mulheres que encaram múltiplas formas de opressão.

Para algumas privilegiadas, dizer palavras de motivação de frente para o espelho pode até surtir algum efeito, mas para a maioria de nós isso é algo demasiadamente superficial e será preciso muito mais do que isso.

Barreiras na construção da nossa autoestima

Afinal, a maior parte das mulheres brasileiras ainda lida diretamente com a violência de gênero, com o racismo, e encaram a privação do acesso a seus direitos mais básicos, como saúde, saneamento, moradia, educação. Fatores importantíssimos que influenciam nossas emoções e sentimentos cotidianos e, portanto, também estão relacionados a construção da nossa autoestima.

Portanto não há uma única maneira de lidar com a baixa autoestima, pois somos mulheres singulares, cada uma com necessidades individuais e coletivas diferentes.

Seja gentil consigo mesma

Mas uma coisa que será preciso para qualquer uma de nós é buscar ter gentileza com o nosso processo particular. Afinal, só você sabe o que é ser mulher na sua pele.

Muitas vezes não reconhecemos o desafio que foi chegar até o ponto em que chegamos e transformamos a construção do amor próprio em mais uma autocobrança. Principalmente quando nos comparamos a outras mulheres que dizem ter “chegado lá” fazendo isso, isso ou aquilo… que não funciona para você.

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Uma forma de encontrar essa gentileza com o seu processo particular é jogar luz sobre o contexto que foi a sua vida até aqui.

Geração transgressora

Muitas vezes não nos damos conta de que somos:

  • A primeira geração de mulheres das nossas famílias a termos acesso a educação básica ou ao ensino superior.
  • As primeiras a sairmos de um relacionamento abusivo ou de um emprego que nos causava infelicidade.
  • As primeiras a assumirmos um relacionamento homoafetivo ou morarmos junto sem casar.
  • As primeiras a colocarmos uma blusinha curta mostrando o umbigo ou a usarmos os cabelos de forma solta e natural na rua.

Somos as primeiras em muita coisa, mas é mais comum darmos o foco para aquilo que sentimos que falta. Um mecanismo muito comum que temos de ficar procurando defeitos ou oportunidades de melhoria em nós mesmas.

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Processo transgressor

Para construir esse lugar do amor próprio de uma forma genuína e saudável, portanto, é preciso passar pelo reconhecimento e pela aceitação de quem fomos e somos. E aceitação é um processo extremamente ativo, vivo, em constante movimento e com seus altos e baixos.

Logo, ser agente de transgressão, desconstruir a baixa autoestima e reconstruir algo novo em si envolve muita coisa, menos passividade.

É como disse Juliana Andrade (@bondedajujuzl) em sua palestra TEDx: “entre o caminho da sua casa onde você está se sentindo bem até o caminho da casa dos seus amigos, onde você também vai estar se sentindo bem […] as pessoas vão te julgar durante todo o percurso. […] Amor próprio não é assim do nada, e nem muda a sociedade de imediato.” (aliás, assista a palestra completa, nós recomendamos muito).

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Processo de reconhecimento, valorização e celebração de nossas singularidades

Precisamos, portanto, ter gentileza com os nossos processos individuais e buscar novas referências que nos ajudem a construir uma visão mais positiva de nós mesmas. Que não dependa da validação do olhar do outro e que não tenha relação com a satisfação de se sentir bem por caber dentro deste ou daquele padrão determinado pela sociedade. Padrões que, em geral, são inatingíveis para a maioria das mulheres.

Dessa forma, começamos a trilhar um caminho de autoestima que parte de um novo lugar. O lugar do reconhecimento, da valorização e da celebração de quem somos, com todas as nossas singularidades.

Acreditar genuinamente que somos suficientes e capazes é o caminho para não nos tornarmos dependentes dessa validação do outro. É no reconhecimento dessa nossa integridade e da nossa potência que criamos repertório para estabelecer relações mais saudáveis daqui pra frente.

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Conclusão

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A jornada de desconstrução de uma baixa autoestima é longa, em alguns momentos bastante solitária, mas é de fato recompensadora.

Quando abrimos espaço para honrar a nossa própria história, quando entendemos que os conceitos de perfeição nos aprisionam, quando reconhecemos o nosso valor e enxergamos nossas falhas e vulnerabilidades como características bonitas da nossa subjetividade, nos permitimos viver uma existência mais autêntica, criativa, libertadora e potente. Com menos culpa, medo, tabu ou vergonha, e a despeito de tudo de negativo que já nos disseram.

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