Início » Autoconhecimento » Cultura do cancelamento e a construção de relações descartáveis

Há cerca de poucos anos um novo comportamento passou a ser percebido de maneira massiva nas redes sociais: a cultura do cancelamento. 

Mas o que começou como movimento de denúncia e boicote a casos de violência e intolerância ganhou, ao longo do tempo, novas roupagens, proporções e significados na vida das pessoas.

Neste artigo, vamos refletir um pouco sobre o que é a cultura do cancelamento e o seu peso para a construção de relações que, no fim das contas, perderam a possibilidade de diálogo e se tornaram descartáveis.

Afinal, a cultura do cancelamento é capaz de provocar uma mudança genuína no comportamento daquele que foi cancelado? Seria a cultura do cancelamento uma força popular que rompe a manutenção de poder que sistematicamente protege autores de violência e intolerância? E quando o cancelado mora dentro da nossa casa, como fica essa relação?

Venha refletir sobre essas e outras questões com a gente.

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O que é a cultura do cancelamento?

A cultura do cancelamento teve seu princípio no mundo das relações virtuais e foi muito popularizada pelo movimento #metoo, que revelava publicamente casos de assédio e violência sexual cometidos por figuras de poder, expondo seus nomes e convocando boicotes.

O ativismo de hashtag pareceu, neste momento, se consolidar como uma verdadeira ferramenta de transformação da realidade fora das redes.

Afinal, o poderoso Harvey Weinstein foi demitido e condenado a mais de 20 anos de prisão por estupro. Não havia nenhuma expectativa de que esse resultado fosse obtido se no lugar de colocar a boca no trombone virtual as vítimas tivessem recorrido a meios de denúncia digamos…mais tradicionalmente estabelecidos.

Isso se deu em meados de 2017. Mas de lá para cá, a cultura do cancelamento foi ganhando nova forma, se tornando uma verdadeira arena de linchamento virtual. 

Não apenas figuras públicas autoras de assédios, violências e intolerâncias eram passíveis de cancelamento, mas toda pessoa que expunha uma atitude ou fala desagradável, inapropriada ou moralmente questionável por um grupo. Sem que a essa pessoa fosse concedida a possibilidade de diálogo, reflexão, debate, retratação e mudança.

Cultura do cancelamento e a vigilância do comportamento

Nenhum ser humano é infalível. Mas na internet parece que estamos cercadas de pessoas perfeitas, isentas de defeitos, que estão sempre de prontidão para detectar e apontar o erro alheio.

Estabelecemos uma relação de vigilância com o comportamento do outro que nos remete um pouco à realidade social fictícia do livro 1984, onde os adultos morriam de medo de qualquer pensamento ou comportamento desviante que poderia ser detectado pelas teletelas ou pelas crianças espiãs que prontamente às denunciariam ao Partido

Resultando em nada mais nada menos que o seu desaparecimento da face da terra, o apagamento de qualquer registro da sua existência e o seu esquecimento por parte daqueles que ficaram.

Parece que George Orwell estava prevendo a cultura do cancelamento, não? Pessoas vigiadas a todo momento, até mesmo dentro de suas casas, até mesmo por suas próprias crianças. Assustador!

Salvo alguns casos em que a cultura do cancelamento trouxe pressão popular para desmontar estruturas de perpetuação de violência e opressão, como no caso Weinstein, esse nosso comportamento cancelador e a sua vasta disseminação no mundo virtual revela muito sobre nossa dificuldade de acolher as diferenças e incapacidade de sustentar a troca e o diálogo saudável nas nossas relações. 

Cancelamento e mentalidade de substituição

No lugar de abrir espaço para a construção de debates sociais construtivos, a cultura punitiva e irreparável do cancelamento expõe o retrato de uma sociedade cujo capitalismo e o liberalismo estão arraigados até mesmo na nossa forma de ser e existir: para quê tentar reparar e corrigir o que está ruim se a gente pode só trocar? 

Troca os artistas preferidos, troca os amigos, troca os candidatos, troca a família, troca o que for necessário ser trocado. 

Por trás do cancelamento há um ser humano descartável

Mas só é possível sair cancelando a torto e a direito e seguir em frente com a vida a partir do momento que entendemos as pessoas como peças intercambiáveis, substituíveis ou descartáveis nessa trama que se desenrola tanto no mundo virtual quanto no mundo físico.

Não estamos aqui fazendo uma apologia para que você mantenha na sua vida aquela relação que não lhe cabe mais, que é tóxica e te faz mal. Isso definitivamente merece ser revisto, desconstruído e abandonado. 

Me refiro aqui, na verdade, à armadilha dessa mentalidade de substituição que no final das contas nos leva a uma polarização extrema das relações, ao distanciamento afetivo e a impossibilidade de dialogar e debater produtivamente.

Uma mentalidade intolerante ao erro que ainda por cima alimenta ciclos de humilhação e exposição, e que demanda um imediatismo da parte daquele que foi cancelado. Exigindo que ele entenda em 3 segundos o que nós muitas vezes levamos meses ou até anos de vida para assimilar e compreender.

Dica para assistir

É como diz Jout Jout no seu vídeo A problematização que atrapalha: “a gente quer papai e mamãe pensando igual a gente até o final do jantar”. 

Um imediatismo que só joga contra a nossa capacidade de construir pontes,  transformar realidades e fortalecer alianças.

Alías, sugerimos que você confira essa potente conversa com Marcela Mahmundi na íntegra aqui:

O cancelamento também é fuga da responsabilidade

A palavra responsabilidade contém em si o significado de “resposta a uma habilidade”. Nesse sentido, refletimos o cancelamento alheio também como uma fuga da responsabilidade. 

Enquanto seres humanos, somos dotados de habilidades sociais para construir diálogos, rever paradigmas nocivos e semear transformações. 

Mas quando reduzimos nossas relações interpessoais a “cancelar ou ser cancelado” abrimos mão de toda essa potência transformadora e criamos bolhas de grupos que se isolam por afinidade e que não dialogam entre si.

Cuidado para não confundir

Certamente não proponho aqui nos colocarmos na posição de enciclopédia da desconstrução alheia. Não temos obrigação nenhuma de assumir esse papel de educadoras. Tampouco devemos passar pano para agressores ou opressores e sermos tolerantes com a violência.

Mas podemos sim, no lugar de construir muros, ter a disposição em construir pontes. Habilidade não nos falta!

Para cada porta que se fecha, outra se abre

Além disso, faz muito mais sentido lutar por aquilo que se acredita, mesmo que isso envolva conversas exaustivas, conflitos e confrontos, do que se isolar num mundo de verdades particulares, ou em grupos sociais onde só tem gente que pensa igual a gente, construindo relações humanas cada vez mais intolerantes à diversidade, cada vez mais descartáveis e substituíveis.

Pense que cada porta de diálogo e conversa que fechamos empurra as pessoas para um lado oposto. E nesse lado oposto pode haver uma porta aberta e convidativa para o extremismo, o autoritarismo, o fascismo e o negacionismo.

Somos co-responsáveis nesses processos conforme eles tomam forma no mundo, mesmo sem aderirmos a eles, percebe?

Conclusão

Salvo situações de discurso de ódio e intolerância, que de fato devem ser interrompidas e corrigidas porque representam uma ameaça à vida, a cultura do cancelamento não apresenta tantos benefícios para as relações humanas quanto inicialmente aparenta. 

O cancelamento anula a possibilidade do diálogo, da troca e da construção de um pensamento colaborativo e nos empurra para o isolamento afetivo, para a solidão e para o excesso de individualismo.

Muito mais do que abalar estruturas de poder e provocar uma reorganização positiva da nossa sociedade e do pensamento das pessoas que fazem parte dela, a cultura do cancelamento tem sido usada com o objetivo de construir e destruir reputações, alimentar egos e acirrar as polarizações.

Que sejamos, portanto, capazes de aumentar a nossa tolerância às falhas e a nossa disposição em dialogar, abandonando esse narcisismo das pequenas diferenças que fazem ruir as relações humanas.

A troca e o diálogo tem tudo a ver com a possibilidade de viver sua sexualidade de uma forma mais positiva e potente. Conheça nossa Aula Temática de Sexualidade Positiva sobre Intimidade do Casal e descubra caminhos mais saudáveis para as suas relações.

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