dificuldade para gozar

A absoluta falta de desejo sexual e a dificuldade para gozar é uma queixa comum entre as mulheres brasileiras. Segundo a Pesquisa Mosaico 2.0 (2016) realizada pelo Projeto de Sexualidade da Universidade de São Paulo (ProSex) e coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, 55,6% das mulheres relatam ter dificuldade para chegar ao clímax

Nossa experiência na Prazerela, com o desenvolvimento da Terapia Orgástica, nos revela na prática a mesma realidade que é apontada pela pesquisa. Mais de metade das mulheres têm dificuldade para gozar.

Mas o fato é que, até mesmo entre as mulheres que conseguem chegar ao clímax, a grande maioria delas acessa apenas uma ínfima fração da potência orgástica do corpo.

Mas qual seria a razão para essa epidemia da falta de orgasmos entre as mulheres?

Neste artigo vamos refletir sobre os aspectos que atuam como barreira ao prazer feminino com foco voltado para as mulheres cisgênero. Vamos também propor caminhos de desconstrução que te apoiem nessa empreitada de conquista dos seus orgasmos e autonomia sobre o seu prazer.

 

Mulheres cisgênero têm mais dificuldade para gozar?

dificuldade de gozar mulher cisgênero

Existem muitos aspectos que nos impedem de ter orgasmos, mas nossa anatomia prazerosa definitivamente não é uma delas. 

Função do clitóris

função do clitoris

Na medicina, nunca houve muito interesse em aprofundar os estudos sobre o prazer feminino. Como a função do clitóris é apenas proporcionar prazer, por séculos ele foi completamente esquecido pela ciência. Séculos mesmo!  

Em 400 a.C. Hipócrates (“pai” da medicina) já sabia da existência do clitóris, mas foi apenas em 1998, com a pesquisadora Hellen O’Connell, que tivemos uma noção do tamanho de sua estrutura completa, que chega a possuir de 8 a 10cm, abraçando o canal vaginal, e suas inervações que chegam a fazer conexões diretas com o nosso cérebro.

Clitóris vs. Pênis

clitoris e penis

Além disso, o clitóris é uma verdadeira usina de prazer. Possui mais de 8 mil terminações nervosas na sua glande, enquanto a glande peniana, por sua vez, possui apenas metade dessa quantidade.  

Ou seja, temos uma sensibilidade expressivamente maior no clitóris em comparação ao pênis. 

Pênis: orgão multifuncional

Isso se deve ao fato de que o pênis é um órgão multifuncional: serve para fazer xixi, tem papel na reprodução e também é fonte de prazer. Além disso, uma sensibilidade semelhante a do clitóris poderia causar imenso desconforto já que é um órgão que se projeta para fora do corpo e com isso tem maior possibilidade de contato físico com a roupa e outras partes do corpo. 

Clitóris: exclusivo para o prazer

Já as mulheres cisgênero, por sua vez, e todas as demais pessoas que tem vulva, possuem estruturas mais especializadas na região genital, onde cada órgão tem uma localização e função distintas. Uretra para urinar, útero e ovários para reprodução e clitóris SÓ PARA DAR PRAZER. 

Portanto, as mulheres cisgênero não tem mais dificuldade para gozar em termos de anatomia e fisiologia prazerosa. Elas possuem, na verdade, uma biologia mais especializada para o prazer e a vantagem de serem multiorgásticas (capazes de vivenciar mais de um orgasmo por relação). 

Leia também: Orgasmos múltiplos feminino: O que são? Qual é a sensação? 

 

Fingir orgasmo: você já se perguntou por que faz isso?

fingir orgasmo

Na frustração de não conseguir chegar ao clímax, uma outra epidemia que parece se alastrar entre as mulheres são os orgasmos fingidos, e isso tem muito a ver com os aspectos repressores da sexualidade para mulheres.

Desconhecimento do corpo

desconhecimento do corpo

Muitas vezes as mulheres possuem dificuldade para gozar e fingem os orgasmos durante as relações porque não sabem lidar com o próprio corpo, desconhecem suas zonas erógenas e os estímulos que são capazes de lhe proporcionar prazer.

Tabu da sociedade

tabu na sociedade

Tamanho desconhecimento tem relação com o controle do exercício da sexualidade das mulheres em nossa sociedade, em geral, privadas desde a infância do processo de exploratória sensorial do corpo e descoberta do prazer na individualidade 

Crescemos ouvindo que meninas precisam ser “belas, recatadas e do lar” enquanto “meninos serão meninos” e com isso estão autorizados a se explorar e se descobrir desde muito cedo. 

Educação Sexual

A (pouca) educação sexual que tivemos na família ou nas escolas, tratou de nos alienar ainda mais da descoberta da nossa potência orgástica ao focar apenas nas questões patológicas e reprodutivas dos nossos corpos.  

Nos foi ensinado que tínhamos vagina (parte interna do genital que leva ao útero), mas convenientemente deixaram de fora dessa explicação a vulva (parte externa, onde fica o clitóris). Não é de se espantar que tantas mulheres tenham dificuldade para gozar. Você já viu alguém ser capaz de dar importância para uma parte do corpo que sequer é nomeada ao longo da vida?

Pornografia = sexo heteronormativo, falocêntrico e machista

pornografia

Além desse processo de alienação compulsória dos nossos corpos, que acontece geração após geração de mulheres, existe um agravante que é: aquilo que entendemos como referência de sexo. 

Na ausência de uma educação sexual de qualidade, muitas vezes é na pornografia que homens e mulheres matam a sua curiosidade a respeito do sexo. E nisso acabam construindo referências muito distorcidas e limitadas sobre prazer e relacionamentos a dois. 

A antítese do prazer para as mulheres

90% dos conteúdos pornográficos nos ensina que a penetração é a protagonista da festa, que preliminar se resume a uma cusparada na vulva pra molhar o caminho, que mulheres gostam mesmo é de serem objetificadas e humilhadas, que o nosso clitóris é irrelevante e pode ser completamente ignorado, e que o nosso prazer nunca é prioridade, mas sim estar a serviço do prazer do outro. 

São referências extremamente heteronormativas, falocêntricas e machistas da intimidade, e que são a antítese do prazer para as pessoas com vulva.

Insegurança e falta de diálogo

insegurança e falta de diálogo

Outro fator relacionado a dificuldade para gozar é a insegurança e a ausência de diálogo nos relacionamentos. Muitas mulheres não falam sobre a sua dificuldade para gozar e acabam fingindo o orgasmo por vergonha e receio de ofender suas parcerias (sejam elas casuais ou de longa data!).

Essa insegurança e falta de diálogo é generalizada e não atinge apenas os casais heterossexuais. O filme The Feels (2018, Netflixassista ao trailer) é um bom exemplo da problemática no contexto de um relacionamento homoafetivo. 

Nele, um casal de mulheres prestes a se casar encaram um abalo na relação quando uma delas revela nunca ter vivenciado um orgasmo. Em clima de comédia, o filme traz para a pauta o problema da insegurança e da falta de diálogos a quais todos os tipos de casais estão sujeitos.

 

Uma barreira mental ou disfunção orgásmica?

barreira mental ou disfunção

É nítido que existem condições médicas que podem levar a dificuldade para gozar, como questões relacionadas a diabetes, cirurgias (como a histerectomia) e até mesmo o uso de medicamentos contraceptivos e antidepressivos. Este último, desde que possua um mecanismo de ação que atua sobre os níveis de serotonina no corpo, o que pode impactar a qualidade da nossa libido.

Leia também: Como aumentar a libido feminina: 4 dicas e reflexões cruciais! 

Mas o fato é que as causas da dificuldade para atingir o orgasmo estão muito mais relacionada a aspectos culturais, sociais, emocionais e psicológicos para a maior parte das mulheres que enfrenta essa dificuldade. 

Reflita sobre a sua autonomia

Antes de você achar que possui algum problema, é necessário se questionar o fato de que em uma sociedade machista e patriarcal, pouco interessada nos nossos prazeres e orgasmos, o estímulo e a excitação para a maior parte das mulheres é simplesmente insuficiente. É aí que pode morar a raiz do problema. 

O que falta é qualidade, porque capacidade… nós temos!

 

Dificuldade para alcançar o clímax: como você pode chegar lá?

dificuldade para chegar ao clímax

Quando nos responsabilizamos pelo nosso próprio prazer, quando ganhamos autonomia sobre os nossos corpos e nos fortalecemos enquanto mulheres potentes e merecedoras dos nossos orgasmos, nos tornamos cada vez menos suscetíveis às interferências externas, às opiniões dos outros e aos tabus culturais. 

Nitidamente esse não é um processo fácil, e tampouco existem caminhos prontos que você possa seguir para conquistá-lo. Mas cabe a cada mulher ir a fundo nessa autoinvestigação pessoal para conseguir entender a sua própria história, seus gatilhos de medos e inseguranças e principalmente o que está atuando como barreira ao seu prazer em particular.

Tomando consciência sobre essas questões, seja sozinha, seja na troca com outras pessoas ou ainda com um acompanhamento terapêutico, você certamente terá maiores condições de desconstruir essas barreiras e conquistar os seus orgasmos. 

 

Conclusão

Você viu que muito pouco da dificuldade das mulheres cisgênero em gozar tem a ver com problemas anatômicos ou fisiológicos. Afinal, vimos como os corpos com vulva possuem uma biologia favorável ao prazer, podendo vivenciar inclusive os orgasmos múltiplos. 

Vivenciar essa potência, no entanto, é algo desafiador para a maior parte delas. Havendo muitos fatores que atuam como barreira, como o desconhecimento a respeito do próprio corpo, o tabu da sociedade e as referências distorcidas sobre sexo que a pornografia ensina a homens e mulheres no geral 

Por isso, busque compreender o contexto desafiador onde se desenvolve a sexualidade das mulheres cisgênero e busque se acolher, se conhecer e compreender os aspectos particulares e desafiadores que fazem parte da sua própria história antes de se culpar ou julgar por não conseguir chegar ao orgasmo. 

Esse talvez seja o gesto mais revolucionário e amoroso que você pode fazer por você mesma.

Se você enfrenta dificuldades para chegar ao clímax e gostaria de ter ainda mais informações, não deixe de conferir a aula específica sobre este tema no nosso conjunto de Aulas Temáticas de Sexualidade Positiva ministradas por Mariana Stock, fundadora da Prazerela. 

Você poderá ainda marcar uma Sessão Particular Online de Sexualidade Positiva com uma de nossas terapeutas orgásticas, que estarão munidas de material informativo e muita escuta afetiva para você tirar as suas dúvidas sobre sexualidade.

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