Início » Amor Próprio » Mulheres trans: um debate sobre sexualidade e transfobia no Brasil
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A Prazerela é um núcleo de sexualidade positiva dedicado a todas as pessoas que se identificam e se expressam no mundo como mulher, sejam elas mulheres cis ou mulheres trans.

Mas o fato de termos uma iniciativa e um espaço que se propõe acolhedor e potencializador de toda e qualquer expressão de mulheridade não anula a possibilidade de reproduzirmos discriminações e violências entre nós mesmas.

Algumas vezes notamos que a discriminação é falta de informação, outras vezes notamos que ela é consciente e deliberada. Seja qual for a situação, acreditamos que uma educação sexual que se propõe positiva para todos precisa ser comprometida com essa desconstrução.

É por essa razão que este artigo pretende informar e jogar luz sobre um dos fatores que limitam a expressão da sexualidade positiva e potente das mulheres trans: o cissexismo de nós, mulheres cisgêneros.

O que é o T da sigla LGBTQIA+?

transgênero transexual travesti lgbtqia+

O “T” da sigla LGBTQIA+ se destina às pessoas:

  • transgênero,
  • transexuais
  • e travestis.

Pessoa trans, de maneira geral, são aquelas que não se identificam com o gênero que lhe foi imposto no momento do seu nascimento.

Identidade de gênero

Dizemos imposto porque no momento do nosso nascimento não nos é reservado o direito a nossa autodeterminação. Ou seja, não somos nós quem declaramos a nossa própria identidade. Ela nos é dada, imposta pelo profissional de saúde que nos atribui o gênero masculino quando nascemos com pênis e o gênero feminino quando nascemos com vulva.

No entanto, nossa identidade de gênero não é determinada pelo nosso genital, ela é construída com o passar do tempo, a partir do desenvolvimento da nossa sexualidade e da nossa autopercepção.

Por essa razão, dizemos que as pessoas cis são aquelas que, ao se desenvolverem, se identificaram com essa determinação que foi imposta no momento do nascimento, ao passo que as pessoas trans são aquelas que não se identificaram.

Pessoas cis e pessoas trans

Ser cis ou trans, portanto, não é uma determinação científica, médica ou psicológica. É uma identidade relacional ao contexto da sociedade de onde viemos. Ou seja, é uma identidade que se constrói em resposta a normas ou acordos sociais que são estabelecidos por nós, antes mesmo que viéssemos ao mundo.

É por essa razão que encontraremos variações dessas nomenclaturas em diferentes lugares do mundo e em diferentes contextos de sociedade e ao longo dos tempos.

Leia também: O que é sexualidade positiva? Desperte o seu prazer

Quem são as mulheres trans e as travestis?

mulheres trans e travestis

Mulheres trans

As mulheres trans são especificamente as pessoas trans que se identificam com o gênero mulher. E aqui cabe ressaltar para o desconhecimento das pessoas cisgênero que essa autodeterminação não implica necessariamente na existência de um procedimento de redesignação sexual, tampouco no desejo de se adequar em uma norma de feminilidade definida pela sociedade.

A existência das mulheres trans vai muito além do genital ou dessas caixinhas limitantes.

Travestis

Já o termo travesti, que em muitos momentos pode ser entendido como sinônimo de mulheres trans (mas isso não é norma), carrega em si uma identidade política, pois se tornou símbolo de luta contra a opressão e a marginalização.

É preciso ressaltar, no entanto, que nem mesmo essas nomenclaturas são imutáveis ou dão conta de expressar todas as possibilidades de identidades e existências.

Travestigeneres

Como no imaginário social e nas determinações trazidas pela ciência moderna os termos transgênero, transexual e travesti são carregados de patologização e estigmas, isso leva muitas pessoas da sigla “T” a recusarem também estas nomenclaturas para sua autodeterminação. Preferindo se referir a sua identidade como travestigeneres ou transvestigeneres, por exemplo.

Identidades Trans

Independente da nomenclatura, as identidades trans, de modo geral, não são novidade no mundo. Elas sempre existiram.

Foi a ciência médica e a psicologia que precisaram, dentro dos seus campos de atuação, desenvolver linguagens e termos que dessem conta de nomear os seus “achados médicos”, frequentemente carregados de estigmas, preconceitos e cisnormatividade.

Mas são as pessoas no front da luta contra essas normas, e suas consequências, as principais responsáveis por transmutar os seus símbolos e significados.

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O que é cissexismo?

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Dentro do nosso contexto de sociedade é notável a presença e a dominância de pessoas cis nos mais diversos espaços:

  • na área da saúde,
  • na educação,
  • na política,
  • nos cargos de liderança das empresas,
  • etc.

Ou seja, estamos em uma sociedade tanto gerida quanto operada majoritariamente por pessoas cisgênero, que por sua vez, usufruem de uma posição de privilégio nessa sociedade em detrimento das pessoas trans.

Ou seja, vivemos em um contexto de sociedade (e de mentalidade individual de cada um de nós) que é cissexista.

Transfobia: desumanização de pessoas trans na sociedade

O cissexismo diz respeito à desconsideração ou muitas vezes a total anulação da existência de pessoas trans nesta sociedade.

  • Seja pela privação do acesso a direitos básicos,
  • seja na ausência de políticas específicas voltadas às necessidades de pessoas trans,
  • seja pela falta de representatividade nos espaços de poder,
  • seja no comportamento cisnormativo que determina que o corpo, o comportamento e a existência cisgênero é a norma para todos os seres humanos.

Cissexismo portanto, é sobre a desumanização de pessoas trans e sobre a manutenção de um sistema cisnormativo sustentado por pessoas cisgênero, que força pessoas trans a estarem a margem desta sociedade nos mais diversos aspectos que atravessam a nossa existência.

O que chamamos de transfobia, que é o preconceito e a discriminação em relação a pessoas trans, é uma parte fundamental do comportamento cissexista e do cissexismo.

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O cissexismo das feministas

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Não poderíamos deixar de abordar uma especificidade do cissexismo que atinge de forma mais intensa as mulheres trans: o cissexismo das feministas cisgêneros.

Convenhamos… o movimento feminista está longe de ter uma pauta única que contempla toda expressão de mulheridade. Dentro do guarda-chuva da luta das mulheres por seus direitos existem:

  • as feministas racistas,
  • as feministas gordofóbicas,
  • as feministas capacitistas,
  • as feministas cissexistas.

Dentro deste último grupo estão as mulheres que deliberadamente negam e anulam a existência de mulheres trans, e as recusam dentro do seu movimento de libertação e luta por direitos. Como se a luta da mulher fosse um clube exclusivo (literalmente, um clube que exclui).

Transfobia no feminismo

A defesa dessas mulheres cis que integram o movimento feminista transfóbico é a de que a presença de mulheres trans no movimento invizibiliza a opressão de gênero sofrida por elas, bem como suas conquistas. Que tais pautas deveriam ser tratadas separadamente.

Deixaram de ressaltar, no entanto, que o mesmo machismo que agride e mata mulheres cis é também o o principal algoz de mulheres trans.

transfobia no feminismo

Falar sobre o cissexismo de mulheres cis, tanto quanto sobre o machismo dos homens, por exemplo, é algo extremamente importante no contexto do nosso país, pois estamos falando que uma questão de vida ou morte.

Nosso país lidera as estatísticas de assassinato de pessoas trans no mundo inteiro. Somente no primeiro semestre de 2020, 89 pessoas foram assassinadas no Brasil, segundo boletim da Antra.

Sexualidade positiva e a transformação da sociedade

Na Prazerela, acreditamos que a sexualidade positiva tem uma natureza transformadora, e precisa necessariamente estar comprometida com a desconstrução de visões nocivas de sociedade a respeito das diversas possibilidades de expressão da sexualidade.

Toda pessoa que se identifica como mulher no nosso contexto de sociedade está sujeita a múltiplas formas de agressão, violência e discriminação. Mas pouco falamos sobre o quanto nós mesmas (as mulheres cis) somos responsáveis pela manutenção desse sistema que ora sim e ora também se volta contra muitas de nós.

Reflexão sobre o lugar de privilégio simbólico

Mulheres cisgêneros, brancas, magras, sem deficiências, ricas, em posição hegemônica precisam urgentemente refletir sobre a sua própria existência e sobre o lugar de privilégio simbólico e material que ocupam neste mundo.

Afinal, o feminismo não deveria ser sobre um progresso individual para poucas, mas sim sobre um progresso coletivo, que seja por e para todas as mulheres, principalmente aquelas em posição de maior risco e vulnerabilidade.

Leia também: Sexo com prazer: a transa sem prazer ainda é opção para você?

Conclusão

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Este artigo está longe de considerar todas as questões pertinentes às mulheres trans e ao cissexismo das mulheres cis. Esse é digamos… um começo de conversa.

Nossa intenção foi trazer um básico de informação a respeito da letra “T” da sigla LGBTQIA+, que como vimos está em constante mudança (e é pra ser assim mesmo), bem como plantar uma semente de reflexão para que você, mulher cis que acredita que o mundo poderia ser um lugar melhor para todas as mulheres, reflita sobre a sua própria posição de privilégio na sociedade.

Afinal, toda mulher merece sentir prazer e tem o direito de viver a sua sexualidade de forma autêntica e potente. E cabe a nós criar as condições para que isso de fato possa ser usufruído por todas as mulheres, sem exceções.

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