Início » Sexo e Sexualidade » Objetificação feminina: como identificar e combater?

A objetificação feminina é um comportamento nocivo, mas altamente naturalizado nas relações humanas, nas produções cinematográficas ou publicitárias. Acontece que o fato dela ser naturalizada e frequente no nosso dia a dia não a torna necessariamente mais fácil de ser identificada, traduzida ou combatida.

Quando pensamos em objetificação geralmente nos vem à mente aquelas representações hipersexualizadas de peitos, bundas e virilhas de mulheres nos cartazes do cinema ou nas propagandas de cerveja. Esses são exemplos de objetificação, mas que representam apenas a ponta do iceberg. A parte mais explícita do problema. 

O tema em si é muito mais abrangente e complexo do que isso, pode se apresentar de modo mais sutil no nosso dia a dia e gerar os mais diversos efeitos e consequências na vida de diferentes mulheres.

É por esta razão que, neste artigo, falaremos sobre essa faceta da sociedade misógina, machista e patriarcal que contribui para o processo de desumanização de mulheres: a objetificação feminina. 

Você compreenderá formas de identificá-la, de traduzir seus significados, impactos e maneiras de combatê-la.

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O que é objetificação?

Objetificação é o processo de tratar alguém como objeto, como uma coisa que, hierarquicamente, tem menor valor que o de uma pessoa. Algo isento de emoções, sentimentos ou características que relacionamos à humanidade.

Nesse processo, a condição de sujeito é negada ao indivíduo frente a uma situação ou representação de uma situação. 

Exemplo: A objetificação animal

Nós objetificamos os animais, por exemplo, quando colocamos os humanos em posição hierarquicamente superior, a partir de parâmetros estabelecidos por nós mesmos: inteligência cognitiva e aptidões motoras, para citar alguns. 

Ou ainda quando atribuímos a qualidade de gozar de sentimentos e emoções exclusivamente aos humanos e tratamos animais como objetos de consumo inanimados e isentos dessas singularidades. 

Consequências da objetificação animal

Com isso, é massiva a quantidade de pessoas que não estabelece nenhum tipo de consciência ou conexão emocional e afetiva com o alimento que consome, e não se sensibiliza, por exemplo, com questões relacionadas ao sofrimento animal dentro das cadeias produtivas de alimento.  

E a objetificação feminina?

 

No que diz respeito a objetificação feminina, por sua vez, esse é um processo de desumanização que em geral vem acompanhado do controle do exercício da sexualidade de mulheres

Não somos objetificadas para que se criem galpões de abate em massa de fêmeas humanas, como é feito com os animais. Mas para que não tenhamos autonomia ou pertencimento ao nosso próprio corpo. 

Para que haja controle dos nossos direitos reprodutivos.

Para que nos identifiquemos com o lugar de objeto sexual e de desejo que deverá apenas atender ao prazer ou ao poder masculino.

Um processo que tem grandes consequências na forma como existimos e nos expressamos neste mundo.

Identificando o problema

Para ajudar a identificar a objetificação sexual feminina em uma peça publicitária, por exemplo, a doutora em Ciências Políticas Caroline Heldman desenvolveu um teste de sete perguntas que poderiam ser feitas. 

Se a resposta for sim para qualquer uma dessas perguntas, há uma intenção de objetificação por trás da imagem. São elas:

1) A imagem mostra apenas partes sexualizadas do corpo de alguém?

Ou seja, imagens de mulheres sem cabeça, com apenas algumas partes do seu corpo em foco, geralmente com pouca ou nenhuma roupa e em posição estereotipicamente sensual.

2) A imagem apresenta uma pessoa sexualizada como um objeto inanimado?

Ou seja, a mulher representada como uma boneca, uma mesa, um cabide, uma taça de sorvete, qualquer coisa isenta de sentimentos e emoções que possa ser consumida ou utilizada com uma finalidade decorativa.

3) A imagem mostra pessoas sexualizadas como intercambiáveis? Ou seja, como um item que se pode trocar por outro.

Por exemplo: mulheres enfileiradas como se fossem objetos produzidos em série, com pouca distinção entre si, sem nenhum traço de personalidade ou singularidade.

4) A imagem afirma a ideia de violação da integridade corporal de uma pessoa sexualizada, sem que a pessoa possa consentir?

Ou seja, cenas que retratam uma mulher em situação de vulnerabilidade, violência, assédio ou agressão, muitas vezes em voluntária submissão ou com cara de quem “está gostando de sofrer”.

Ou ainda um momento íntimo em que a mulher não tem consciência de que está sendo secretamente observada por um expectador.

5) A imagem sugere que a disponibilidade sexual dessa pessoa é a principal característica que a define?

Ou seja, a primeira informação que você tira da imagem ou da cena é de que a mulher é virgem, sexualmente experiente, solteira, libidinosa, frígida, qualquer qualidade relacionada a sua disponibilidade sexual e não a sua personalidade.

6) A imagem mostra uma pessoa sexualizada como algo que pode ser comprado e vendido?

Por exemplo, mulheres expostas em um cardápio, numa vitrine, nas prateleiras de um supermercado ou um catálogo, com etiquetas de preço, códigos de barra ou tags de promoção.

7) A imagem trata o corpo sexualizado de alguém como uma tela?

Ou seja, uma superfície inanimada onde você pode escrever, rabiscar e desenhar o que bem entender.

Dica para assistir

Você pode assistir a palestra da Dra Caroline Heldman no TEDxYouth@SanDiego onde ela fala sobre essas 7 perguntas e as consequências da objetificação para a vida das mulheres no vídeo abaixo:

Mulheres também objetificam mulheres?

Quando falamos em objetificação feminina as imagens que nos vem a mente são as representações hipersexualizadas e inanimadas que tem o objetivo de atender ao prazer de um público especificamente masculino, cisgênero e heterossexual

No entanto, é preciso considerar e discutir as facetas da interseccionalidade de classe e raça, por exemplo, sobre esse processo de objetificação do corpo feminino. Senão, acabaremos acreditando erroneamente que somente homens são capazes de praticar esse comportamento, e não é bem por aí! 

Interseccionalidade e a objetificação feminina

A objetificação feminina não é um fator relacionado apenas ao gênero.

Historicamente pessoas hegemônicas, ou seja, em posição de poder, controle e dominância, se fazem valer da objetificação feminina para a manutenção dessa sua posição, ou até mesmo para o seu progresso na sociedade. 

E sim, existem mulheres nessa posição hegemônica, tanto quanto existem homens! Especificamente… mulheres cisgênero, brancas, geralmente pertencentes à classe média/alta.

Quando se troca seis por meia dúzia

Para muitas dessas mulheres o seu processo de autonomia, libertação e empoderamento individual não se deu pela reformulação da dinâmica na tríade esposa-marido-filhos, com nova distribuição de tarefas e equidade nas responsabilidades do lar. 

Na verdade, em muitos lares brasileiros essa reformulação se deu pela transferência da sobrecarga de trabalho e cuidado doméstico à uma outra mulher, com menos poder, autonomia ou liberdade.

A mulher em posição hegemônica, nesse sentido, não deseja que a trabalhadora doméstica se perceba mulher assim como ela se percebe. Não deseja, inclusive, que a trabalhadora doméstica tenha sexualidade, feminilidade, atributos atrativos, ambições, voz, potência. 

Mas que seja submissa, agradecida pela sua posição subordinada e que tenha uma vocação natural para a limpeza, a cozinha, o cuidado das crianças.

E preferencialmente que faça tudo isso com um sorriso no rosto porque ninguém quer olhar para a mulher que faz a sua cama e lava o seu vaso sanitário com a cara amarrada. Isso não traz boas energias.

Ora, e isso também não é um processo de objetificação que impacta a maneira como mulheres podem ser e existir nesse mundo?

Cissexismo e a objetificação feminina

Para citar um outro exemplo bem diferente, existe ainda o caso daquelas que se recusam a aceitar a mulheridade das mulheres trans. Como se a feminilidade fosse um atributo único e exclusivo de mulheres cisgênero. Como se houvesse uma hierarquia que dita que algumas mulheres possuem a liberdade e o poder de desqualificar e desumanizar outras com base no seu genital. 

Em outras palavras, se fazem valer da objetificação feminina para que se sintam mais mulher do que algumas mulheres.

Leia mais: Mulheres trans: um debate sobre sexualidade e transfobia no Brasil

Adultização e a erotização precoce de meninas

 

Além de educar meninas para acreditarem que o seu sucesso e prosperidade futura depende do desenvolvimento de seus atributos físicos e do seu comportamento como uma boa mulher/filha/esposa/mãe, o que atrapalha em muito a nossa vida, há também a questão da adultização e erotização precoce de meninas na nossa sociedade. 

O desenvolvimento dos seios, por exemplo, encolhe a infância e nos arremessa para uma adolescência de olhares maliciosos e desconfortáveis. O primeiro sutiã, mesmo que você tenha apenas 10 anos, já vem com enchimento no bojo para realçar seus volumes, dando o recado do que o mundo espera de você.

Me recordo de uma experiência particular da minha infância onde as meninas da escola se reuniam em roda no horário do recreio e faziam competição de descida na boquinha da garrafa ao som do É O Tchan!.

Somente meninas podiam rebolar (alô machismo disfarçado de empoderamento feminino). E se destacava a menina que rebolasse melhor e sem desequilibrar. Devíamos ter apenas 7 anos de idade nessa época.

A cineasta Maïmouna Doucouré, em seu filme Lindinhas, explora de maneira dura e indigesta, embora necessária, esse atravessamento do machismo na objetificação feminina e no desenvolvimento da sexualidade de meninas.

 

A colunista e escritora Joice Berth trás uma análise do filme e uma reflexão mais profunda sobre a precarização da infância em seu artigo para a revista Elle e que você pode conferir clicando aqui.

Objetificação feminina e objetificação masculina são a mesma coisa?

Diferentemente da objetificação feminina que exerce um efeito considerável na liberdade e autonomia que as mulheres possuem para existir no mundo e desfrutar da sua sexualidade, o mesmo não acontece em relação aos homens, ou acontece de uma forma diferente. 

Homem-objeto: existe isso?

É fato que a objetificação masculina existe tanto quanto a objetificação feminina, mas para homens em posição hegemônica isso não os destitui desse lugar de dominância, poder e status. 

Um homem nessa posição, inclusive, flerta com a ideia de ser visto como um objeto sexual. Justamente porque existe um erotismo atraente em interpretar um papel de submissão para aquele que nunca, de fato, precisou se submeter a nada.

Homens em posição não hegemônica

Mas não podemos desconsiderar os homens que não estão em posição hegemônica. Para estes, a objetificação dos seus corpos contribui fortemente para o seu processo de desumanização e marginalização na sociedade.

É o caso, por exemplo, de mulheres heterossexuais que esperam uma determinada performance sexual de homens negros, apenas porque eles são negros.

Ou ainda aquele caso do homem cisgênero branco que vê na virilidade do homem negro uma ameaça a sua própria masculinidade, e nisso constrói para estes homens a narrativa de uma sexualidade animalesca, violadora de filhas e esposas.

Essa objetificação exerce grande impacto sobre as possibilidades de existência para esses homens. Eles serão vistos como possíveis líderes intelectuais ou terão reservados os trabalhos de esforço mecânico? Serão tratados de forma calorosa e cordial pelo pai da namorada naquele almoço de domingo, ou serão submetidos a um interrogatório seco e desconfiado que mais parece uma inquisição?

Como combater as múltiplas formas de objetificação?

A primeira maneira de combate às múltiplas formas de objetificação é aquela que se inicia em nós mesmas, pela auto observação

Procure identificar na sua história e nos seus comportamentos aqueles que contribuem para a desvalorização e a desumanização de outras pessoas, seja no seu modo de falar, de pensar, nas suas crenças, nos seus valores mais fundantes, na maneira como você estabelece relações com as pessoas que estão a seu serviço.

Já ao testemunhar algum comportamento objetificante partindo de outra pessoa, procure intervir e não compactuar com o que está acontecendo. Fale, reaja, incomode

Sabemos que nem sempre isso é possível porque muitas vezes nos encontramos em uma posição vulnerável frente a essas situações. Onde nossa reação, frequentemente, se reverte em prejuízos ainda maiores para nós mesmas.

Mas algumas outras vezes, convenhamos, preferimos permanecer no silêncio para não sermos causadoras do desconforto alheio. Se for esse o caso, mais vale questionar a situação e provocar o desconforto do opressor do que deixar a objetificação passar impune.

Ao apoiar o fortalecimento e o empoderamento de outras mulheres você também combate a objetificação feminina. 

Às vezes temos uma amiga que está identificada com esse lugar objetificado e que só precisa de uma boa conversa para perceber que ela pode, na verdade, ser o sujeito desejante ao invés do objeto de desejo. 

Você pode ser uma rede de apoio ao se colocar disponível para dialogar. 

Conclusão

Uma sociedade patriarcal misógina e machista, fundada sobre um modelo falido de masculinidade, sempre terá como premissa a desumanização de mulheres e a objetificação feminina.

Interromper esse ciclo é uma tarefa árdua, não só pelo interesse de alguns grupos hegemônicos na manutenção do seu poder. Mas também porque há na mídia e na publicidade um interesse perverso de empacotar nossos discursos de autonomia e empoderamento para desenvolverem novas formas de violência e opressão, cada vez mais sutis de serem identificadas. 

Porque a insegurança e a baixa estima das mulheres… vende e gera lucro.  

Sejamos portanto mais astutas, menos agradáveis, mais combativas, assertivas e organizadas para subverter essa lógica.

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