Início » Relacionamentos » Relacionamento saudável: você está em um? Saiba identificar os sinais
relacionamento saudável o que é

Você acredita que o amor envolve a fusão total de duas vidas?

Que um relacionamento saudável é aquele em que o casal vive na mesma casa, compartilha das mesmas refeições, assiste as mesmas coisas, tem os mesmos gostos e pensa igual a respeito dos mesmos assuntos?

A parceria certa é aquela que só tem olhos pra você, que tem vontade de transar a todo momento, que te coloca sempre em primeiro lugar e que se priva do seu próprio prazer por sacrifício a você?

Neste artigo vamos falar sobre as características de um relacionamento saudável e sobre a nossa frequente construção de relações romantizadas e com extrema codependência afetiva que muito geralmente nos levam à frustrações e decepções com o amor.

Como estamos nos relacionando?

como ter um relacionamento saudável

Nós somos pessoas repletas de sentimentos, emoções, expectativas e desejos sobre a vida. Cada ser humano um próprio universo particular e que vez ou outra resolve se encontrar para partilhar do universo um do outro.

Acontece que, muitas vezes, quando entramos em uma relação, vamos gradualmente nos fundindo ao outro e perdendo essa referência de quem éramos na nossa individualidade. Caímos numa espécie de acordo oculto compulsório de que nossas vidas agora… são uma só.

Perda sutil (ou não) da identidade

Esquecemos até mesmo as coisas que nos davam prazer e alegria sem o envolvimento de uma companhia e, no lugar de construir um relacionamento saudável, depositamos nas nossas parcerias uma grande expectativa de que elas sejam capazes de suprir todas as nossas faltas e necessidades afetivas. Condenando a relação à frustração e a ausência de satisfação.

Mas embora esse seja um caminho comum para muitos casais, é possível construir outros caminhos para as relações afetivas. E o primeiro passo talvez seja tomarmos consciência dos caminhos prejudiciais que são comuns, a fim de evitá-los.

Leia também: Sexo com prazer: a transa sem prazer ainda é opção para você?

O efeito manada dos relacionamentos

codependência afetiva relacionamento

É comum pensarmos que nossos sentimentos e desejos são sempre autênticos e desenvolvidos com a nossa própria consciência crítica e sem nenhuma influência externa. Mas isso não é bem verdade.

Frequentemente somos pegos pelo efeito manada das coisas, que é uma tendência humana em repetir, muitas vezes inconscientemente, os padrões de comportamento que observamos nos outros, mesmo que eles nos tragam prejuízos e frustração.

A forma como estabelecemos relações compulsoriamente monogâmicas e repletas de codependência afetiva são grandes exemplos desse efeito manada dentro dos relacionamentos.

Leia também: Como melhorar o relacionamento? Dicas para mais prazer na intimidade a dois

Relacionamentos monogâmicos

relacionamentos monogâmicos saudáveis

Quando não fazemos nenhum outro tipo de acordo com as nossas parcerias, a monogamia geralmente é o modelo que se apresenta como padrão de fábrica dos relacionamentos. E esse modelo vem reforçado de todos os lados pela família, pelas religiões, pelas tradições, pela publicidade, pelas datas comemorativas ou pelos filmes românticos.

Dentro dessa ideia de relacionamento monogâmico, mora o entendimento de que uma pessoa pertence a outra e a expectativa de que tudo que precisaremos para suprir as nossas necessidades de afeto poderá ser encontrado nesse relacionamento a dois.

Posse, contrato e propriedade sobre o outro

O que, se pararmos para pensar… remete a ideia de posse, contrato e propriedade sobre o corpo e o sentimento alheio. Onde qualquer quebra neste contrato fica livre para ser interpretada como egoísmo, traição ou desrespeito.

relacionamento saudável relacionamento monogâmico

Querer fixar as condições de uma relação com princípios absolutos e não dialogados como é o caso da monogamia compulsória, é uma grande ilusão.

Sentimentos, emoções, corpos e afetos não possuem qualquer tipo de compromisso com a ideia de permanência e contratos. Ninguém de fato pertence ao outro. E a todo momento precisamos revisitar as nossas relações para sabermos que ainda queremos fazer parte delas.

É por essa razão que a monogamia como um modelo compulsório, torna-se a antítese do relacionamento saudável. Pois ela retira a nossa autonomia de construir as bases de limites e possibilidades dos nossos próprios relacionamentos.

Leia também: O que é empoderamento feminino? Importância e 7 princípios

Desigualdade de forças em relacionamentos monogâmicos

relacionamento monogâmico desigualdade de forças

Outro fator que não pode ser desconsiderado nesta análise é a desigualdade de forças e a frequência com que as estruturas de poder e privilégio da nossa sociedade se refletem dentro dos relacionamentos monogâmicos.

  • O que se reserva para uma mulher dentro de um relacionamento monogâmico heterosexual, em uma sociedade machista?
  • O que se reserva para uma pessoa preta dentro de um relacionamento monogâmico com uma pessoa branca em uma sociedade racista?
  • O que se reserva para uma pessoa trans dentro de um relacionamento monogâmico com uma pessoa cis em uma sociedade cisnormativa?

Assuntos de casal?

relacionamento saudável monogamia compulsória

Essa ideia de que “um pertence ao outro” raramente é, de fato, mútua. E a monogamia compulsória acaba criando um espaço de permissividade para que se concretizem estruturas poder, controle e opressão dentro dos limites da relação. Sem que ninguém de fora se sinta autorizado a interferir, pois são assuntos do casal.

Então como seria possível o estabelecimento de um relacionamento saudável se a monogamia compulsória, que retira a nossa autonomia, deixa vulnerável principalmente as pessoas que não se adequam à norma hegemônica (branca, masculina, cisgênero, heterossexual, etc)?

Talvez não seja possível.

Leia também: Baixa Autoestima: como melhorar a nossa autopercepção?

Codependência afetiva e outras formas de se relacionar

codependência afetiva nos relacionamentos

Mesmo que você revisite o acordo compulsório da monogamia e estabeleça novas bases para um relacionamento saudável, ainda há a questão: o que estamos esperando desta ou de qualquer outra relação amorosa?

Estamos com o outro porque tememos a solidão, esperando que a nossa felicidade seja trazida em uma bandeja de prata, ou estamos criando espaço para a individualidade e para a solitude (o prazer de estar sozinha, mesmo que acompanhada)?

A terceirização da felicidade

Precisamos notar que, por melhor que seja a intenção das nossas parcerias em nos agradar, nenhuma pessoa jamais será capaz de nos trazer nossa própria felicidade em uma bandeja de prata. Buscar o que nos faz bem é a nossa responsabilidade em qualquer relação, e geralmente não dá muito certo tentar terceirizar essa função.

Mito do amor romântico

amor romântico dependência felicidade

Essa configuração de extrema dependência que circunda grande parte dos relacionamentos está fundada no mito do amor romântico. Que é a ideia de que seremos capazes de reproduzir em uma relação um ambiente acolhedor, completamente seguro, onde somos um só e não existe nenhum tipo de falta ou ameaça.

Mas sabe quando já vivemos em um ambiente desse tipo? Somente quando estávamos sendo gestadas, na segurança e acolhimento do útero. E para o útero, musa… a gente não volta mais. Nesse sentido, não devemos encarar a vida adulta com desejos primitivos e infantis. Relacionamentos afetivos são complexos demais para olharmos para ele de forma tão simplista e romantizada.

Uma outra possibilidade de configuração nos relacionamento, no entanto, e que acaba sendo o extremo oposto da codependência afetiva é a total independência afetiva.

Leia também: Transar menstruada: 5 dúvidas sobre sexo na menstruação

Independência afetiva

relacionamento saudável independência afetiva

Na independência afetiva cria-se um espaço para a experimentação de outras possibilidades de acordos do casal. Geralmente, cada pessoa se entende como um universo particular, com seus desejos e vontades próprias, e trabalha para que a relação preserve ao máximo este espaço individual.

Mas há também uma armadilha comum a essas configurações de relacionamento, que é o uso da independência afetiva como uma desculpa para satisfazer somente os seus desejos e agir de acordo com as suas próprias vontades. Sem ter consideração ou responsabilidade afetiva sobre o que as suas atitudes e comportamentos podem causar no outro. Ou seja, o uso da independência para se isentar da auto responsabilidade.

Independência afetiva e a desigualdade

independência afetiva desigualdade relacionamento saudável

E cabe dizer que o fator da desigualdade de forças que mencionamos no tópico anterior, e da reprodução das estruturas de poder e opressão dentro dos relacionamentos pode reforçar a vulnerabilidade de um dos lados. Pois quem, na sociedade atual que vivemos, tem mais possibilidade de ser e existir em total independência?

Acertou quem pensou em:

  • homens,
  • pessoas cisgêneras,
  • pessoas brancas,
  • pessoas heterossexuais,
  • pessoas sem deficiência…

Pessoas que estão em posição de privilégio no conjunto da nossa sociedade geralmente conseguem exercer mais a sua independência e autonomia do que outras.

Independência afetiva e a fuga da conexão genuína

independência afetiva fuga conexão genuína relacionamento

Somado a isso, a total independência trás o risco de uma impossibilidade de conexão afetiva genuína, porque quando estamos 100% autocentrados, dificilmente estaremos dispostos a nos aprofundar no outro.

Isso também se torna um escudo para pessoas que têm receio de demonstrar as suas próprias vulnerabilidades, não se permitindo ser acessada pelo outro ou se aprofundar na relação. E nisso acaba se tornando fonte de angústia e também de solidão.

Já uma opção que consideramos mais positiva para a construção de um relacionamento saudável é a interdependência afetiva.

Interdependência afetiva

interdependência afetiva relacionamento saudável

Na interdependência afetiva nos tornamos conscientes da nossa integralidade, dos nossos desejos e vontades. E nos encontramos com um outro ser… também integro, também repleto dos seus próprios desejos e vontades. E a partir deste encontro negociamos o que nos cabe junta, e o que nos cabe separadamente.

Nessa configuração ninguém se torna a metade da laranja de ninguém, mas ambos, cientes de sua individualidade, tem o outro em consideração, e ambos escolhem partilhar daquilo que fizer sentido a cada momento.

Leia também: Como aumentar a libido feminina: 4 dicas e reflexões cruciais!

Exemplos de relacionamentos de codependência, independência e interdependência

Vamos a um exemplo simplificado de como as 3 configurações de relacionamento se manifestam em uma situação cotidiana?

Relacionamento afetivo de codependência

codependência afetiva relacionamento saudável

Relacionamento afetivo de independência e de interdependência

independência e interdependência afetiva relacionamento saudável

E então? Você é do tipo que sempre pensa no outro antes de pensar em você, do tipo que só pensa em você ou do tipo que pensa em você tendo o outro em consideração?

E a pessoa com quem você se relaciona, como ela tem trazido suas demandas, desejos e vontades? No tipo codependência, independência ou interdependência?

Leia também: O que é sexualidade positiva? Desperte o seu prazer

Conclusão

relacionamento saudável expectativas diálogo

Se você se percebe em um modelo de relacionamento que não está positivo para um dos lados, em que há excesso de expectativas e demandas. Em que há muitas vezes a autoprivação de um para que se cobre a autoprivação do outro e um desapego de toda e qualquer individualidade. Ou ainda, onde há uma excessiva individualidade, o convite aqui é para que se crie um espaço de diálogo nessa relação e se façam novos acordos.

O que é possível dentro da sua relação para que se estabeleçam as bases para um relacionamento saudável? Quais são as suas necessidades e desejos, e quais são as necessidades e desejos do outro?

Tente descobrir onde é possível se encontrar e onde é preciso preservar a individualidade para que vocês continuem sendo dois universos inteiros, e não duas metades que se completam, mas que também se anulam.

E se não há espaço para essa troca e esse diálogo na sua relação, reflita se isso é um sinal de que você de fato não se encontra em um relacionamento saudável. E se há algo a ser feito nesse cenário para resgatar a intimidade de uma forma mais positiva.

E se não houver, é como diz a célebre frase atribuída a muitos autores na internet, com uma pequena intervenção nossa para dar um toque de desromantização:

Onde não puderes amar de forma saudável, potente e consciente da sua própria inteireza, não te demores.

Gostou desse conteúdo e gostaria de aprender muito mais? Confira a nossa aula online sobre Resgate da Libido que faz parte do nosso pacote de Aulas Temáticas de Sexualidade Positiva e empodere-se ainda mais do seu corpo e dos seus prazeres.

Que tal continuar a leitura?

comentários

Seja a primeira a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.